terça-feira, 21 de dezembro de 2010

SAIU NO ESTADÃO - CADERNO VIDA / CIÊNCIA / EDUCAÇÃO / SAÚDE / SOCIEDADE - EM 14/12/2010

NO PAÍS, 77% DOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIA 
SE SENTEM DESRESPEITADOS

O Estado de S.Paulo, Clarissa Thomé - 14/12/2010

Dificuldade para ter acesso aos serviços e fazer valer o direito de ir e vir estão entre as  principais queixas das pessoas com deficiência física, visual ou auditiva. Quatro em cada dez entrevistados deixam de ir a certos lugares por falta de espaço adaptado.

Pessoas com deficiência não têm seus direitos respeitados no País. Essa é a opinião de 77% dos 1.165 portadores de deficiência entrevistados na pesquisa sobre a condição de vida dos deficientes no Brasil, feita pelo DataSenado, entre 28 de outubro e 17 de novembro. O estudo foi realizado com base no cadastro do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD), com 10.273 registrados.

“As pessoas se sentem sem acesso aos serviços, desrespeitadas no seu direito de ir e vir, e o importante é que elas estão percebendo isso. O preconceito ficou tão natural, como quando um deficiente físico é carregado para entrar no ônibus que não tem elevador, que as pessoas não percebem como preconceito”, observou a superintendente do IBDD, Teresa Costa D’Amaral.

A pesquisa mostra que os prédios públicos estão mais adaptados (18% responderam que a maioria tem acesso) que os comerciais (12% de respostas favoráveis). Mas as ruas e calçadas são o grande entrave para a locomoção –  para 87%, nenhuma ou poucas das ruas estão adaptadas em sua cidade. Quatro em cada dez entrevistados deixaram de ir a algum lugar porque a estrutura física não estava adaptada.

Essa falta de adaptação também compromete o lazer – 64% dos deficientes físicos e 51% dos visuais gostariam de praticar esportes, mas não podem por falta de acesso; 25% dos deficientes auditivos gostariam de ir ao teatro; e 23% dos deficientes visuais iriam ao cinema, se as salas fossem adaptadas.

Ação estatal. O estudo aponta que falta atuação mais firme do Estado na prevenção e tratamento aos deficientes – 64% consideraram que a prevenção de doenças que leva a deficiências é pouco eficiente. “Os deficientes auditivos se sentem mais discriminados que os demais. Eles ficam mais isolados”, afirma Teresa. “Hoje, uma prótese auditiva leva três anos para ser concedida. Quando a criança recebe, passou o primeiro momento da comunicação. Ela já fica com defasagem. É o total desrespeito.”

De acordo com a pesquisa, 43%disseram que se sentem discriminados no ambiente de trabalho– o índice chega a 63% entre os deficientes auditivos e 44% entre os visuais.

Dos entrevistados, 759 são deficientes físicos,170 visuais e 236 auditivos. A pesquisa foi feita pelo telefone. Deficientes auditivos responderam por e-mail, após receberem mensagem com um filme explicativo sobre o estudo, com interprete da linguagem de sinais.

 Dificuldade

43% dos entrevistados disseram que são atendidos por transporte público em sua cidade

51% relataram que a principal falha do transporte público é a falta de veículos adaptados

26% se queixaram da falta de colaboração dos funcionários 

23% reclamaram que os outros passageiros desrespeitam o assento preferencial

AMPUTAÇÃO DE UMA PERNA IMPEDIU OCUPAÇÃO DE VAGA - O ESTADO DE SÃO PAULO, MARCOS DE PAULA - 14/12/2010


Valéria de Almeida Fraga - Técnica em Comércio Exterior - "Não tenho dúvidas de que poderia assumir o emprego, pois preenchia todos os pré-requisitos. A grande verdade é que, quando as pessoas me veem de perna amputada, acham que eu também amputei o cérebro.”  Após ter sido aprovada em entrevistas por telefone e e-mail, Valéria, de 28 anos, foi recusada ao  comparecer à firma.

Valéria de Almeida Fraga, de 28 anos, candidatou-se a uma vaga em uma empresa logística que faz fretamento de embarcações para cargas do comércio exterior. Foi entrevistada por telefone, depois respondeu um questionário por e- mail e finalmente, há dois meses, foi chamada à firma com toda a documentação para ocupar a vaga. Mas o fato de ter parte da perna esquerda amputada– a impediu de ocupar o posto.

“Alegaram que a vaga para deficientes estava preenchida”, explica Valéria, que até hoje não conseguiu um emprego.

A deficiência lhe foi imposta por uma bactéria que atingiu o osso do pé, depois de um tratamento malfeito em um hospital público. Há cinco anos, ela sofreu um corte no pé, causa do por uma garrafa de cerveja. Em janeiro de 2010, teve a perna amputada abaixo do joelho.

A falta da perna direita do baiano Fabio Santos Jesus, de 31 anos, é de nascença. Sua mãe nunca lhe explicou direito o motivo da deficiência com a qual convive sem maiores problemas. Marceneiro de profissão, durante muito tempo viveu de biscates até conseguir, há dois anos, um emprego fixo por  meio da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), que tem convênio com algumas instituições públicas.

Hoje ele trabalha na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).  “Faço manutenção na marcenaria e recebo R$ 1,1 mil por mês”, conta. Pai de quatro filhos, todos perfeitos, é divorciado. Segundo diz, nem quando criança, ainda na Bahia, sofreu qualquer espécie de discriminação ou preconceito. “Até dançar forró eu danço, sem nenhum problema”, afirma.

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Inclusão é sair das escolas dos diferentes e promover a escola das diferenças - Maria Teresa Égler Mantoan

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